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About Last Night

She used words to say nothing at all and silence to explain everything.

About Last Night

She used words to say nothing at all and silence to explain everything.

words | 22

Abri a garrafa de vinho, servi um copo de pé alto como nos filmes, e levei um cigarro à boca sem o acender. Não porque não queria mas apenas porque podia. Podia abrir quantos maços decidisse comprar e não me deixar sucumbir à necessidade de os fumar. Apeteceu-me tanto aumentar o volume do rádio quando começou a tocar aquela música, mas já era tarde. Fiquei a ouvir, sentada - por mais que a vontade de me pôr a dançar como a adolescente que era naquela altura fosse mais do que muita. Sorri, como faço sempre que me lembro do quanto éramos alegres. Abri a janela da varanda, fez mais barulho do que era suposto e esperei para me certificar de que não tinha acordado ninguém. Silêncio. Fui arrebatada pelo choque da temperatura lá fora, arrepiei-me e puxei o robe até às orelhas, ponderando voltar para dentro mas continuei. Fechei a janela, desta vez com mais cuidado, e sentei-me numa das cadeiras de plástico brancas típicas pousando o copo na mesa a condizer. Estava frio, daqueles que cortam a respiração, mas aquele céu... Gargalhadas. Acho que já as tinha ouvido mas sem prestar atenção. Procurei pelo barulho. Sabia de onde vinha, a origem é sempre a mesma. Procurei as gargalhadas e imediatamente percebi que uma delas era a tua... Simultaneamente outro som começou a acompanhar o teu riso, era o som dos meus batimentos cardíacos. Sim, ainda tens esse efeito em mim. Não consegui, ou não quis, desviar o olhar da tua silhueta que, convinhamos, não deixa de ter a sua graça que eu ainda a reconheça assim. Riste-te muito, fumaste quase tanto mas pouco bebeste. Acho que nunca tinha reparado no quanto és expressivo no que quer que fosse que estavas a dizer - foi necessária a distância (presente e passada). Peguei no telemóvel, abri a lista dos contactos e então lembrei-me que não estás mais lá. Não estás porque ninguém precisa de saber que nunca foste apenas uma "coisa de miúdos". Nem que eu sempre soube o teu número de cor. Comecei a escrever-te uma mensagem. Apaguei. Escrevi de novo. Apaguei. Respirei fundo e procurei por ti, no sítio do barulho e das gargalhadas, à espera de um estúpido sinal, de qualquer coisa que me autorizasse a escrever aquela mensagem. Mas não te encontrei. Tu já não estavas lá. Deixei de ouvir o teu riso e de ver a tua silhueta. Esperei. Não desviei os olhos, nem mesmo quando a vizinha abriu a persiana de repente, provavelmente incomodada com as gargalhadas que eu tanto queria continuar a ouvir. Esperei. Mas não havia sinal de ti. Guardei um rascunho em branco - nem todos os telemóveis permitem fazer isso. Pousei-o na mesa de plástico branca, peguei no copo de vinho e bebi-o até ao fim. Voltei a minha atenção para aquele céu... Quando tranquei a janela da varanda atrás de mim e fechei as cortinas para me deixar adormecer numa cama que não estava vazia, era de dia.

 

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